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460>_778812

 
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460>_745204

 
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O SAPATEIRO POBRE
Havia um sapateiro que trabalhava à porta de casa e todo o santíssimo dia
cantava. Tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita
pobreza, e à noite, enquanto a mulher fazia a ceia, o homem puxava da
viola e tocava os seus batuques muito contente.
Ora defronte do sapateiro morava um ricaço, que reparou naquele viver e
teve pelo sapateiro tal compaixão que Ihe mandou dar um saco de dinheiro,
porque o queria fazer feliz.
O sapateiro lá ficou admirado. Pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a
mulher para o contarem. Naquela noite, o pobre já não tocou viola. As
crianças, como andavam a brincar pela casa, faziam barulho e levaram-no a
errar na conta, e ele teve de lhes bater. Ouviu-se uma choradeira, como
nunca tinham feito quando estavam com mais fome. Dizia a mulher:
- E agora, que havemos nós de fazer a tanto dinheiro?
- Enterra-se!
- Perdemos-lhe o tino. É melhor metê-lo na arca.
- Mas podem roubá-lo! O melhor é pô-lo a render.
- Ora, isso é ser onzeneiro!
- Então levantam-se as casas e fazem-se de sobrado e depois arranjo a
oficina toda pintadinha.
- Isso não tem nada com a obra! O melhor era comprarmos uns campinhos.
Eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
- Nessa não caio eu.
- Pois o que me faz conta é ter terra. Tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se,
atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro da outra,
naquela noite não pregaram olho.
O vizinho ricaço reparava em tudo e não sabia explicar aquela mudança.
Por fim, o sapateiro disse à mulher:
- Sabes que mais? O dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era
ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela
pobreza que nos fazia amigos um do outro!
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos, e o sapateiro, com vontade
de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e
voltou para a sua tripeça a cantar e a trabalhar como de costume.

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Uma mãe tinha três filhas e todas eram tatas. Para fazer que elas não perdessem casamento, disse-lhes:
- Meninas, é preciso estarem sempre caladas quando vier aqui a casa algum rapaz. Doutro modo, nada feito!
De uma vez, trouxe-lhes um noivo para ver se gostava de alguma delas, e tinha-se esquecido de repetir a recomendação às filhas. Estavam, pois, elas na presença do noivo, que ainda não tinha dado sinal para quem ia a sua simpatia, quando uam delas sentiu chiar o lume. E logo disse muito lampeira:
- Ó mãe, o tutalinho fede (isto é: «O pucarinho ferve»)!
Diz dali a outra irmã:
- Tira-le o této e mete-le a tolé (isto é: «Tira-lhe o testo e mete-lhe a colher»).
A última, zangada por ver que as irmãs não obedeciam à habitual recomendação da mãe, exclamou:
- A mãe nam di que não falará tu? Pois agora não tasará tu (isto é: «A mãe não disse que não falarás tu? Pois agora não casarás tu)!
O noivo, assim que viu que todas elas eram tatibitate, desatou a rir e fugiu pela porta fora.

«Contos Populares Portugueses» - Antologia organizada por Viale Moutinho